Opinião: Mulheres na Engenharia

Nos últimos tempos muito se tem falado sobre a desigualdade de géneros que se observa a nível global, mais concretamente sobre a discriminação de que as mulheres ainda são vítimas. As diferenças entre os dois géneros fazem-se notar de vários modos: em termos salariais dado que, em média, as mulheres ganham consideravelmente menos que os homens ainda que trabalhem nas mesmas condições, na proibição (por muitas vezes camuflada) das mulheres desempenharem determinados cargos ou, talvez a mais grave de todas, o facto de em alguns países as mulheres não terem direitos nenhuns, chegando a serem vistas como mera propriedade dos maridos, o que é absolutamente inacreditável em pleno século XXI. Por muito que haja desigualdade de género em questões humanitárias, e ainda que este seja um assunto chocante e preocupante, sendo esta uma newsletter sobre engenharia, o meu foco será o papel das mulheres neste setor.

É verdade que, na sociedade em geral, a engenharia é frequentemente vista como um setor (quase) exclusivamente masculino, onde não há lugar para as mulheres. Ainda que a taxa de mulheres nos cursos da área da engenharia nas universidades portuguesas seja superior à média da OCDE, esta taxa ainda se situa em torno dos 30 %, bem abaixo dos 50 % desejáveis. Sem dúvida que é preciso alterar esta situação e não creio que a mudança consiga ser alcançada com protestos, revolta ou acusações não fundamentadas sobre discriminação.
Na minha opinião, para desmistificar que a engenharia é uma área destinada aos homens, é preciso fazer com que a sociedade fique devidamente esclarecida acerca do que é engenharia. A engenharia não é “coisa de homem”, porém, a conotação geralmente atribuída ao exercício da engenharia é a de um trabalho bastante exigente em termos físicos e não qualificado, o que não poderia estar mais longe da verdade. Não terá o setor da engenharia um índice baixo de mulheres, não por ser um setor discriminatório, mas por ser pouco divulgado junto delas?

Está neste momento a decorrer uma iniciativa organizada pela Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género denominada “Engenheiras por 1 dia” que tem como objetivo divulgar a alunas do do 3º ciclo e do Ensino Secundário e o que é realidade da engenharia em Portugal: um setor igualmente adequado aos dois géneros. O núcleo de alunos a que pertenço esteve envolvido neste projeto, pelo que tive a oportunidade de participar nesta iniciativa. Estivemos presentes em duas escolas secundárias onde, em cada uma delas, as minhas colegas e professora fizeram uma pequena apresentação do Mestrado Integrado em Engenharia de Telecomunicações e Informática, bem como um relato das suas experiências enquanto estudantes de engenharia e enquanto engenheira, respetivamente. Terminamos cada uma das sessões com a demonstração de um projeto prático desenvolvido pelo nosso núcleo. Ao longo da intervenção houve um fenómeno bastante interessante: no início, praticamente todas as alunas das escolas secundárias disseram que não ponderavam vir a ingressar num curso de engenharia e, no final da demonstração, já muitas tinham mudado de opinião e demonstrado bastante interesse pelo nosso curso. É digno de nota que apenas demonstrámos uma pequena parte do que é a Engenharia de Telecomunicações e Informática, pelo que se tivessem sido apresentadas outras áreas, provavelmente mais alunas se teriam identificado e interessado, até porque, dado o número de cursos de engenharia existentes, podemos dizer que há engenharias “para todos os gostos”.

Esta mudança de opinião (quase repentina) face à engenharia que as alunas do secundário demonstraram, leva-me a crer ainda mais que a diferença entre o número de homens e de mulheres neste setor se deve quase exclusivamente à falta de informação fidedigna. É, precisamente, por isso que iniciativas como esta são importantes, para que não hajam preconceitos erróneos sobre a engenharia, que quase sempre são criados por quem nada sabe sobre engenharia e não pelo setor em si.

José Pedro Rei Mateus, vice presidente do NETIUM (Núcleo de Estudantes de Engenharia de Telecomunicações e Informática) e aluno do 4º ano do Mestrado Integrado em Engenharia de Telecomunicações e Informática.

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