Ciclo de entrevistas aos membros do novo Conselho Consultivo da Escola de Engenharia. Nesta edição entrevistamos o Engenheiro Fernando de Almeida Santos, Bastonário da Ordem dos Engenheiros.
O Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) é o órgão de aconselhamento dos órgãos de governo da Escola para assuntos de definição estratégica. Composto por nove personalidades externas à instituição, de reconhecido mérito nos domínios da sua atividade, estes têm como missão pronunciar-se sobre assuntos de caráter pedagógico, científico e de interação com a sociedade.
1. Como recebeu o convite para integrar o Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho e que significado atribui a esta ligação, enquanto Bastonário da Ordem dos Engenheiros?
Recebi com muito orgulho o convite para integrar o Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, porque tem um significado muito especial para mim pelo facto de ter sido aluno da Universidade do Minho no curso de Engenharia Civil entre 86 e 91. Não é tanto o orgulho de ser Bastonário da Ordem dos Engenheiros que motiva esta aceitação, mas mais o meu percurso na Universidade do Minho.
2. Na sua opinião, que valor pode trazer à Escola de Engenharia a presença da Ordem dos Engenheiros no Conselho Consultivo, tendo em conta a sua missão e responsabilidade pública?
Partindo do princípio de que a Universidade do Minho é atualmente uma das principais instituições de Ensino Superior no País, e particularmente na engenharia, o facto de haver uma ligação da Ordem dos Engenheiros (OEng) — e neste caso em particular, com um alumni da Universidade enquanto Bastonário — é extremamente importante no que tem a ver com a intervenção social da OEng junto das escolas de Engenharia em Portugal. No caso particular da Universidade do Minho, há uma dupla responsabilidade pelo sentido de pertença do Bastonário. Entendo que o facto de o Bastonário ter uma ligação especial à Universidade do Minho potencia a proximidade desta Universidade à OEng, e, nas múltiplas atividades que a OEng tem promovido em prol da engenharia portuguesa, o envolvimento da Universidade do Minho é essencial e facilitado.
3. De que forma entende que o Conselho Consultivo pode reforçar a articulação entre a formação académica, a qualificação profissional e os desafios concretos do exercício da engenharia em Portugal?
É inequívoco que a habilitação académica não é a mesma coisa que qualificação profissional. A habilitação académica compete às escolas de engenharia do ensino superior, e a qualificação profissional compete às Associações Públicas Profissionais respetivas, no caso a OEng como Associação Pública Profissional de referência. Neste sentido, a articulação da formação contínua do profissional engenheiro ao longo da vida pode ser centrada na articulação universidade-empresa, onde a OEng é fundamental. Tal como noutras profissões, a formação contínua consubstancia-se numa aquisição de conhecimentos ao longo da vida que as academias, por si só, não podem garantir face ao conhecimento do terreno, se não tiverem envolvimento com o tecido empresarial. Assim, o Conselho Consultivo torna-se uma peça-chave das Escolas — e, no caso particular, da Escola de Engenharia da Universidade do Minho — para interagir com o mercado e com as empresas no sentido de averiguar continuadamente as necessidades e interações que esta tem de ter com tudo o que é externalizado no mundo académico, sendo que a formação contínua é uma das vertentes, mas não a exclusiva.
4. Enquanto Bastonário, que tipo de contributo gostaria de deixar à Escola de Engenharia através da sua participação neste órgão consultivo?
Enquanto Bastonário, com intervenção pública, entendo que o crescimento da Universidade do Minho tem sido exponencial ao longo das últimas décadas, e a participação do Bastonário no Conselho Consultivo permite um conjunto de vetores que vão além dos conteúdos académicos, nomeadamente uma abordagem de enquadramento social e territorial da Universidade do Minho na comunidade local, regional e também nacional. E esta última vertente é extremamente importante para que se perceba que a dimensão da Universidade do Minho não pode ser vista como regional, mas sim nacional. O impacto regional que se faz sentir através da Universidade do Minho tem de ser extrapolado para o território e para as cidades que o compõem, sendo certo que esse ajustamento territorial das cidades face ao facto de ser a terceira área urbana mais importante de Portugal obriga a que a intervenção, por defeito, seja nacional.
5. Tendo em conta os desafios que hoje se colocam à profissão, de que forma considera que a Ordem dos Engenheiros pode colaborar com a Escola de Engenharia para preparar melhor os estudantes para o exercício responsável, qualificado e socialmente relevante da engenharia?
A Ordem dos Engenheiros entende que uma das principais obrigações sociais das universidades portuguesas é explicar aos seus estudantes a sua importância, no futuro, enquanto profissionais para o seu País. Portugal não pode perder talento pelo facto de haver um potenciar continuado e, nalguns casos errático, das Escolas de Engenharia de potenciar a saída de jovens talentos portugueses para outros países. Entendo, por tal, que atualmente uma das principais obrigações sociais das Escolas de Engenharia, na articulação com o Estado e com o interesse nacional, é a preservação e retenção do talento em Portugal para que o contributo para a economia portuguesa seja real através de um recurso estratégico nacional chamado “Engenheiros”.
6. Nos próximos três anos, em que áreas considera mais importante aproximar a Escola de Engenharia da Ordem dos Engenheiros: valorização da profissão, ética e deontologia, competências transversais, qualificação ou transição para o mercado de trabalho?
Sem dúvida que a dimensão principal de uma Escola é a capacitação que consegue transmitir aos seus futuros engenheiros para a transição para o mercado de trabalho. Eles não vêm 100% preparados. Há uma adaptação e uma qualificação que se complementam com o exercício profissional efetivo no trabalho, mas a valorização da profissão conjugada com a ética e a deontologia faz com que, depois, as competências transversais se acumulem às competências técnicas adquiridas, seja escolarmente, seja ao longo da vida. Sob esse ponto de vista, a OEng desenvolveu o Plano Estratégico da Profissão de Engenheiro (PEPE) que conjuga a transição da vida académica e escolar com preceitos disciplinares de ética e deontologia para que haja um acompanhamento e uma valorização do engenheiro sem deixar de atender à sua base académica. Daí que a interação universidade-empresa, universidade-sociedade ou universidade-profissão seja crucial para o desempenho futuro dos intervenientes. Faço notar que nem todos os formados nas universidades virão a ser líderes e, portanto, a questão das soft-skills tem uma preponderância para a afirmação individual do futuro engenheiro, circunstância esta inata ao próprio e não apreendida.
7. Que papel pode a Ordem desempenhar no apoio à Escola de Engenharia para reforçar, junto dos estudantes, a percepção da engenharia como profissão de elevado impacto social, técnico e estratégico para o país?
A OEng tem um papel essencial na ligação às escolas de engenharia, e uma das principais iniciativas foi a atualização de um protocolo institucional com aquelas escolas, sendo que a Universidade do Minho foi uma das primeiras a ter esse reconhecimento e assinatura, porquanto a perceção da engenharia como profissão de elevado impacto social é cada vez mais evidente e estratégica para o país. O conhecimento e o desenvolvimento contínuo da sociedade fazem-se com um vetor chamado “engenharia”, de forma muitas vezes oculta ou não explícita, mas implícita em tudo aquilo que é o desenvolvimento tecnológico da sociedade, por exemplo.
8. Se tivesse de identificar duas ou três iniciativas prioritárias de colaboração entre a Escola de Engenharia e a Ordem dos Engenheiros para os próximos três anos, quais destacaria e porquê?
Há três grandes iniciativas prioritárias a destacar. O Selo EURACE, em primeiro lugar. Como sabemos, existe um sistema de acreditação de cursos de engenharia do ensino superior (A3ES) e, baseado nesse sistema de acreditação, os profissionais oriundos desses cursos acreditados têm obrigatoriamente de ser aceites pela OEng quando se inscreverem. Como estas acreditações são feitas na origem da criação dos cursos e não ao longo daquilo que é o seu desenvolvimento — pelo menos no início —, a OEng criou um sistema de reconhecimento da qualidade dos cursos que tende a constituir uma espécie de “via verde”, uma autoestrada aberta, para a entrada de membros que são oriundos dessas escolas, porquanto o reconhecimento da qualidade dos cursos e dos conteúdos por parte da Ordem dos Engenheiros — no fundo um “selo de qualidade” — é extremamente importante para distinguir determinado tipo de carreiras de outras. Esse é logo um ponto de partida de ligação entre habilitação académica e qualificação profissional.
Por outro lado, entendendo que existe falta de engenheiros em Portugal, a Ordem dos Engenheiros criou o Fórum de Vinculação de Talento na Engenharia com a participação de diversas entidades, entre as quais instituições de ensino, e a Universidade do Minho foi das primeiras a ser convidada para integrar este Fórum. Esta colaboração visa uma tríplice dimensão: atratividade dos mais novos para a engenharia; retenção de talento; e retorno de talento.
Por último, o desenvolvimento profissional do engenheiro ao longo da vida pode ser feito de várias maneiras. Uma das mais importantes é a valorização contínua, mas outra pode ser a inovação em investigação, tudo aquilo que tem a ver com startups, com a aplicação de ideias inovadoras, com estudos contínuos, entre muitos outros. Não quero deixar de realçar que a Ordem dos Engenheiros criou a Especialização em Ensino de Engenharia e, portanto, quantos mais especialistas em ensino de engenharia existirem em Portugal, mais credível será esse ensino, e gostávamos que a Universidade do Minho olhasse para isto com um sentido de obrigação, porque o ensino de engenharia é um ato de engenharia.