Ciclo de entrevistas aos membros do novo Conselho Consultivo da Escola de Engenharia. Nesta edição entrevistamos o Dr. João Rodrigues, Presidente da Câmara Municipal de Braga.
O Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) é o órgão de aconselhamento dos órgãos de governo da Escola para assuntos de definição estratégica. Composto por nove personalidades externas à instituição, de reconhecido mérito nos domínios da sua atividade, estes têm como missão pronunciar-se sobre assuntos de caráter pedagógico, científico e de interação com a sociedade.
1. Como recebeu o convite para integrar o Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho e que significado atribui a esta ligação, enquanto Presidente da Câmara Municipal de Braga?
Recebi o convite com enorme honra e com um profundo sentido de responsabilidade institucional. Esta integração tem um significado muito claro: é a consagração prática da convicção de que o poder local e a academia não caminham em paralelo, mas de mãos dadas. Enquanto Presidente da Câmara Municipal de Braga, vejo este assento no Conselho Consultivo como o reconhecimento de que o desenvolvimento do nosso território exige uma ponte permanente com o saber científico. A Escola de Engenharia é uma parte integrante da inovação da nossa região, e estar presente neste órgão permite-nos alinhar, desde a génese, as estratégias de crescimento da cidade com a excelência do ensino e da investigação que aqui se produzem.
2. Sendo Braga uma cidade profundamente ligada ao conhecimento, à inovação e à presença universitária, como vê o papel de um representante do poder local num órgão de aconselhamento estratégico como o Conselho Consultivo da EEUM?
O papel do poder local neste órgão é o de trazer a “voz do território” e a perspetiva da aplicação prática. Os municípios são hoje laboratórios vivos onde os desafios sociais, económicos, ambientais e urbanísticos se manifestam com toda a intensidade. O contributo da autarquia passa por ajudar a direcionar a investigação e a formação para as necessidades reais da comunidade, garantindo que o conhecimento gerado na EEUM se traduz em políticas públicas mais inteligentes, em maior competitividade para as nossas empresas e em respostas concretas para a qualidade de vida dos cidadãos. A nossa presença serve para ancorar a estratégia académica na realidade económica e social de Braga.
3. Na sua perspetiva, de que forma a proximidade entre a Escola de Engenharia e o Município de Braga pode contribuir para uma visão mais integrada do desenvolvimento da cidade, da região e da própria universidade?
Contribui através daquilo que designo como uma governação baseada no conhecimento e na evidência. Quando a autarquia e a Escola de Engenharia cooperam de forma estreita, conseguimos antecipar o futuro. Isto nota-se no planeamento urbano, na transição energética, na mobilidade inteligente e na dinamização do tecido empresarial. Uma cidade que planeia o seu crescimento articulando o novo PDM, a expansão de solo para atividades económicas e os centros de investigação garante um desenvolvimento sustentável, gerador de emprego qualificado e capaz de fixar talento. A integração destas visões beneficia a universidade, que ganha impacto regional, e beneficia a região, que se posiciona na vanguarda da inovação.
4. Enquanto autarca, que tipo de contributo gostaria de deixar, através deste órgão, para reforçar a ligação entre a EEUM e o território onde uma parte importante da sua atividade se desenvolve?
Gostaria de deixar o testemunho de uma parceria sem barreiras, onde a ciência e a gestão municipal dialogam diariamente. O meu contributo passa por incentivar mecanismos ágeis de transferência de conhecimento, nomeadamente o apoio a projetos aplicados, laboratórios vivos e incubação de base tecnológica, garantindo que as competências dos nove departamentos da EEUM são também mobilizadas para resolver problemas concretos de Braga. Quero que a Escola de Engenharia sinta a Câmara Municipal não apenas como uma instituição parceira, mas como uma extensão natural da sua missão de transformar a sociedade através da engenharia.
5. Nos próximos três anos, em que áreas considera que o Município de Braga pode colaborar de forma mais próxima com a Escola de Engenharia para reforçar a atratividade da cidade como espaço de formação, inovação e fixação de talento qualificado?
A atratividade de Braga faz-se através de um ecossistema completo: habitação a preços acessíveis, mobilidade eficiente, qualidade de vida e oportunidades profissionais. Nos próximos anos, o Município pode colaborar de forma decisiva na criação de condições para reter os engenheiros que formamos. Isto passa por projetos estruturantes como o alargamento de solo empresarial, o apoio à Startup Braga e à InvestBraga, e o desenvolvimento de iniciativas como o BioMedTech Hub. Queremos assegurar que os jovens diplomados pela EEUM encontram em Braga um mercado de trabalho cada vez mais dinâmico, com empresas inovadoras e salários qualificados, tornando desnecessário procurar oportunidades fora do país.
6. Tendo em conta a presença, em Braga, de áreas estratégicas da EEUM como Engenharia Informática e Engenharia Química e Biológica, que oportunidades identifica para aprofundar a articulação entre a Escola, o Município e os setores mais inovadores do território?
As oportunidades são imensas e estão no centro da nossa estratégia de futuro. Na área da Engenharia Informática e de Sistemas de Informação, o Município está fortemente apostado na transformação digital, na inteligência artificial aplicada à gestão pública e na desmaterialização de processos, onde a colaboração da EEUM pode representar um papel inestimável. Na vertente da Engenharia Química e Biológica, bem como de Polímeros e Têxtil, temos o exemplo perfeito no futuro BioMedTech Hub e nos planos de economia circular e transição energética. A articulação passa por cruzar a investigação de ponta destes departamentos com o tecido industrial bracarense, promovendo a inovação de produto, a sustentabilidade ambiental e a soberania tecnológica.
7. Que papel pode uma autarquia como Braga desempenhar no apoio aos objetivos da EEUM ao nível da qualidade de vida estudantil, mobilidade, internacionalização, empreendedorismo e ligação ao tecido económico e institucional da cidade?
A autarquia deve assumir-se como o catalisador da qualidade de vida da comunidade académica. Ao nível da mobilidade, temos uma visão alargada e muito ambiciosa para o futuro: apostamos fortemente na qualificação contínua dos Transportes Urbanos de Braga (TUB), na reformulação e otimização de linhas para servir melhor os campi universitários, na criação de corredores dedicados que retirem os automóveis das principais artérias e na priorização absoluta do transporte público e dos modos suaves. Na habitação temos um exemplo perfeito de cooperação: a Residência Universitária da Fábrica Confiança. No empreendedorismo e internacionalização, o ecossistema liderado pela InvestBraga e Startup Braga funciona como a ponte perfeita para projetar o talento da EEUM nos mercados globais.
8. Se tivesse de destacar duas ou três iniciativas prioritárias que Braga e a EEUM poderiam desenvolver em conjunto nos próximos três anos, quais escolheria para gerar maior impacto na cidade, nos estudantes e na projeção da Escola?
Primeiro, aprofundar os Laboratórios Vivos de Sustentabilidade e Inovação Urbana, aplicando diretamente a investigação dos departamentos de Engenharia Civil, Produção e Sistemas e Eletrónica Industrial aos desafios reais do espaço público, da gestão de tráfego e da eficiência energética de Braga.
Segundo, otimizar a rede de transportes e a mobilidade inteligente do concelho, cruzando o conhecimento técnico da academia com a nossa estratégia de qualificação dos TUB, reformulação de linhas e criação de eixos dedicados que retirem o tráfego automóvel do centro e garantam viagens rápidas e sustentáveis para os estudantes.
Terceiro, reforçar a estratégia integrada de atração e retenção de talento, unindo a oferta formativa da EEUM, o BioMedTech Hub e os programas municipais de emprego qualificado, garantindo que Braga se afirma de forma consistente como a cidade do conhecimento e da engenharia.