Ciclo de entrevistas aos membros do novo Conselho Consultivo da Escola de Engenharia. Nesta edição entrevistamos o Eng. António Rodrigues, CEO do Grupo Casais.
O Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) é o órgão de aconselhamento dos órgãos de governo da Escola para assuntos de definição estratégica. Composto por nove personalidades externas à instituição, de reconhecido mérito nos domínios da sua atividade, estes têm como missão pronunciar-se sobre assuntos de caráter pedagógico, científico e de interação com a sociedade.
1. O que o motivou a aceitar o convite para integrar o Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho e que significado atribui, tanto a nível pessoal como profissional, a esta ligação?
Aceitei o convite porque acredito que a ligação entre as empresas e a academia não acontece por acaso. Tem de ser intencional, trabalhada e orientada para objetivos.
A Universidade do Minho tem uma relação muito próxima com a região, com o tecido empresarial e com áreas críticas para o futuro da economia. Para mim, esta ligação tem um significado pessoal e profissional muito forte, porque junta duas dimensões que considero essenciais: a criação de conhecimento e a sua aplicação prática.
As empresas precisam da academia para pensar mais longe, investigar, formar talento e desafiar a forma como fazemos as coisas. A academia também ganha quando tem uma relação próxima com empresas que testam, aplicam e validam conhecimento em contexto real. Este contributo é útil para ambos os lados e, sobretudo, para a sociedade.
2. A EEUM é uma Escola com uma forte tradição, mas também com uma clara ambição de futuro. Na sua perspectiva, que papel pode desempenhar um membro externo do Conselho Consultivo na ligação entre a visão académica da Escola e as necessidades concretas da sociedade e da economia?
Um membro externo pode ajudar a antecipar tendências e necessidades que as empresas, a economia e a sociedade vão sentir nos próximos anos.
A inovação e o desenvolvimento tecnológico respeitam ciclos longos. Muitas vezes, aquilo que hoje começa como investigação só terá impacto económico e social daqui a vários anos. Por isso, é fundamental que a academia tenha contacto regular com quem está no terreno, com quem sente as mudanças do mercado, os constrangimentos das empresas, a evolução das profissões e as novas necessidades da sociedade.
A EEUM terá muito onde aplicar o conhecimento que desenvolve, se – localmente e internacionalmente – existirem recetores naturais desse trabalho. As empresas podem ser esses recetores. Podem ser também espaços de teste, validação e aprendizagem. Esse é um papel muito relevante de um Conselho Consultivo: ajudar a aproximar a visão académica das necessidades concretas que estão a emergir.
3. Na sua opinião, que tipo de relação deve ser construída entre a Escola de Engenharia e os membros externos do Conselho Consultivo para que este órgão contribua de forma efetiva para a estratégia da Escola, e não tenha apenas um papel simbólico?
A relação deve ser participativa, regular e associada aos momentos relevantes de decisão da própria Escola. Um Conselho Consultivo só acrescenta valor se for chamado a discutir temas concretos, com impacto na estratégia, na oferta formativa, na investigação, na ligação às empresas e na afirmação internacional da Escola. Não deve ser apenas um espaço de escuta formal. Deve ser um espaço de reflexão útil, onde se colocam questões difíceis, se testam prioridades e se alinham oportunidades.
Se os membros externos forem envolvidos em temas que depois se traduzem na agenda da EEUM, o contributo pode ser muito relevante. Para a Escola, porque ganha leitura externa e contacto com necessidades reais. Para as empresas, porque podem ajudar a orientar conhecimento, talento e investigação para áreas onde existe impacto concreto.
4. Enquanto líder empresarial e membro do Conselho Consultivo, de que forma gostaria de contribuir para o desenvolvimento e afirmação da EEUM nos próximos anos?
Gostaria de contribuir trazendo uma perspetiva prática sobre os desafios que as empresas enfrentam e sobre as competências que serão necessárias nos próximos anos. A EEUM tem áreas de intervenção que são chave para os desafios da sociedade e da economia. Pode afirmar-se como referência internacional em domínios específicos, sobretudo naqueles onde consegue cruzar investigação, formação e aplicação prática com empresas que trabalham esses temas todos os dias.
É esse treino conjunto que cria conhecimento de excelência. Quando a academia e as empresas trabalham sobre problemas reais, com exigência técnica e visão de futuro, criam-se condições para formar melhor talento, desenvolver melhores soluções e reforçar a competitividade do território.
5. Face aos desafios atuais da formação em Engenharia, em que áreas considera que a experiência do Grupo Casais pode contribuir de forma mais relevante para aproximar os estudantes da EEUM das exigências reais do contexto profissional?
A nossa experiência pode contribuir sobretudo na ligação entre formação técnica, transformação tecnológica e realidade operacional. A engenharia está a mudar muito rapidamente. A introdução de tecnologia, dados, digitalização, inteligência artificial, automação, novos materiais e novos processos construtivos está a alterar profundamente as funções nas empresas. Isto significa que a formação inicial continua a ser essencial, mas já não chega para toda a vida profissional.
Precisamos de programas de formação complementar, nomeadamente em regime de pós-graduação ou formatos equivalentes, que não têm necessariamente de ser conferentes de grau, mas que permitam atualizar profissionais ao longo da carreira. Esta é uma área em que vejo muito potencial: aproximar estudantes e profissionais das exigências das empresas, com conteúdos práticos, atualizados e ligados aos desafios concretos da indústria.
6. Nos próximos anos, a EEUM pretende reforçar a sua ligação à sociedade e ao tecido empresarial. Que oportunidades concretas vê para aprofundar a colaboração entre a Escola de Engenharia e o Grupo Casais, num horizonte de três anos?
Vejo oportunidades muito concretas em áreas como inteligência artificial, robótica, automação, eficiência energética, novos materiais e novos processos construtivos. A construção continua a ser uma indústria onde muitas atividades são feitas de forma manual, pouco repetíveis e com grande variabilidade. Ao mesmo tempo, temos hoje tecnologias que podem mudar essa realidade: impressão 3D, fabrico aditivo, robotização, digital twins, sistemas inteligentes de controlo, sensores, análise de dados e novas soluções de eficiência energética.
Também há uma oportunidade forte na adaptação de materiais e processos que já existem, mas que antes não eram competitivos ou escaláveis. A tecnologia pode tornar viáveis soluções que, há alguns anos, pareciam demasiado caras, lentas ou difíceis de implementar.
Neste horizonte de três anos, a colaboração entre a EEUM e o Grupo Casais pode passar por projetos-piloto, investigação aplicada, programas de formação avançada e espaços de demonstração onde a inovação seja testada em contexto real.
7. Tendo em conta a experiência do Grupo Casais em áreas como a industrialização, a digitalização, a sustentabilidade e a gestão de talento, que práticas ou aprendizagens considera mais relevantes partilhar com a EEUM para apoiar a sua evolução estratégica?
Podemos partilhar a nossa viagem de transformação e, sobretudo, os obstáculos que encontrámos pelo caminho.
Na digitalização, uma das maiores aprendizagens é que a tecnologia só cria valor quando muda processos, comportamentos e decisões. Não basta introduzir ferramentas. É preciso alterar a forma como se planeia, se mede, se controla e se colabora.
Na sustentabilidade, podemos partilhar a nossa visão sobre economia circular e sobre a necessidade de pensar os edifícios para a mudança. Os edifícios devem ser concebidos com maior capacidade de adaptação, maior eficiência no uso de recursos e menor impacto ao longo do ciclo de vida.
Na gestão de talento, há também um ponto essencial – as pessoas evoluem quando são expostas, de forma estruturada, a novas experiências, novos desafios e novos contextos. A formação técnica é fundamental, mas não chega. Temos de treinar também as human skills – colaboração, comunicação, pensamento crítico, responsabilidade, liderança e capacidade de adaptação. Precisamos de bons profissionais, mas também de boas pessoas, capazes de crescer em ambientes cada vez mais exigentes.
8. Se tivesse de apontar duas ou três prioridades de colaboração entre a EEUM e o Grupo Casais para os próximos três anos, quais destacaria e que impacto esperaria dessas iniciativas?
Destacaria três prioridades:
A primeira é a criação de programas de formação complementar e pós-graduações orientadas para os desafios atuais da engenharia e da construção. O impacto esperado seria muito claro – atualizar competências, preparar melhor os profissionais para a transformação tecnológica e criar um modelo de aprendizagem contínua. Idealmente, muitos dos nossos profissionais deveriam passar por estes programas, e alguns deveriam fazer vários ao longo da carreira.
A segunda é a materialização do CCS – Centro para a Construção Sustentável como referência em sustentabilidade, construção industrializada e aplicação de novas tecnologias. A robótica, a automação, os dados e os novos processos produtivos podem fazer aqui uma diferença muito relevante. Este centro pode ser um espaço de investigação aplicada, demonstração e ligação entre academia, empresas e sociedade.
A terceira prioridade é investigação direcionada para os grandes temas que a Europa precisa de resolver: construir mais, com melhor qualidade, mais produtividade e menor impacto ambiental. Isto é particularmente importante na reabilitação do edificado existente, porque é aí que está a maior parte do património construído e também uma parte muito significativa das necessidades futuras de intervenção.
Se conseguirmos alinhar estas prioridades, a colaboração entre a EEUM e o Grupo Casais pode gerar impacto – melhor formação, melhor investigação aplicada, mais produtividade, mais sustentabilidade e maior capacidade de resposta aos desafios da economia e da sociedade.