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Conselho Consultivo da EEUM em entrevista: Ricardo Araújo

Ciclo de entrevistas aos membros do novo Conselho Consultivo da Escola de Engenharia. Nesta edição entrevistamos o Dr. Ricardo Araújo, Presidente da Câmara Municipal de Guimarães.

O Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) é o órgão de aconselhamento dos órgãos de governo da Escola para assuntos de definição estratégica. Composto por nove personalidades externas à instituição, de reconhecido mérito nos domínios da sua atividade, estes têm como missão pronunciar-se sobre assuntos de caráter pedagógico, científico e de interação com a sociedade.

1 – Como recebeu o convite para integrar o Conselho Consultivo da Escola de Engenharia da Universidade do Minho (EEUM) e que significado atribui a esta ligação, enquanto Presidente da Câmara Municipal de Guimarães?

Recebi o convite com enorme satisfação e com o sentido de responsabilidade que ele implica. A Escola de Engenharia da Universidade do Minho está em Guimarães há praticamente cinquenta anos e, ao longo deste tempo, tornou-se uma das instituições que mais contribuiu para aquilo que o concelho hoje é. Faz parte da identidade da cidade, ao lado da sua história, do seu património e da sua cultura industrial.
Para além disso, desempenha um papel fundamental na formação de pessoas, na geração de conhecimento e de inovação. Para quem nela estuda e para toda a região.
Para mim, integrar este Conselho Consultivo não é uma representação institucional formal, é o reconhecimento de que a Câmara e a Escola partilham uma agenda comum de futuro. É uma oportunidade para colocar a visão do território ao serviço da estratégia da Escola e, ao mesmo tempo, para trazer a inteligência da Escola para mais perto das decisões do Município.

2 – Tendo Guimarães uma relação tão próxima com a EEUM, como vê o papel do Município num órgão de aconselhamento estratégico como o Conselho Consultivo da EEUM?

O papel do Município é o de parceiro próximo, exigente e disponível. Próximo porque a EEUM é, antes do mais, uma instituição de Guimarães: o seu campus principal é em Azurém, grande parte dos seus dez mil estudantes vivem e estudam aqui e a maioria dos seus mais de dez centros de I&D estão sediados aqui. Exigente porque o Conselho Consultivo deve ser um espaço onde se desafia a Escola a olhar para o território como uma das suas razões de ser e não apenas como cenário. E também disponível porque a Câmara tem instrumentos que podem amplificar o impacto do que se decide neste Conselho.

3 – Na sua perspectiva, de que forma a presença do Presidente da Câmara Municipal de Guimarães neste órgão pode reforçar a articulação entre a visão académica da EEUM e as necessidades do território?

Fui eleito com prioridades muito bem definidas: habitação, mobilidade, inovação e desenvolvimento económico. Em todas estas vertentes, em diferentes dimensões, a EEUM pode acrescentar.
A engenharia, hoje, resolve problemas concretos das pessoas. Habitação, mobilidade, energia, água, indústria, saúde — todos os grandes desafios que tenho em cima da mesa enquanto autarca são, no fundo, também desafios de engenharia. Trazer essa agenda para dentro do Conselho permite que a Escola contraste as suas linhas de investigação com problemas reais e urgentes.
Defendo um modelo em que a cidade é um ‘living lab’ da Escola. Quero abrir Guimarães às soluções que podem ser aqui pensadas, como testar mobilidade, materiais, soluções energéticas, sistemas digitais, ferramentas de monitorização ambiental. A presença do Presidente da Câmara serve, sobretudo, para garantir que essa ponte não fica apenas na retórica, porque existe quem decide e existe quem investiga, e estão sentados à mesma mesa.

4 – Enquanto autarca, que contributo gostaria de deixar para aprofundar a ligação entre a EEUM, a cidade de Guimarães e a sua estratégia de desenvolvimento futuro?

A Câmara de Guimarães tem um papel de cooperação com a Universidade do Minho e a EEUM. Tem investido para termos boas condições e infraestruturas para o ensino e investigação.  Por exemplo, investimento que estamos a fazer em projetos estratégicos, como a Fábrica do Arquinho. Mas não podemos ficar por aqui. Temos de dar o passo seguinte. Para além de suporte à atividade da UMinho no território, é preciso que a atividade da UMinho e da EEUM seja o próprio território. O que quer isto dizer? Que estamos a promover as sinergias entre aquilo que de bem aqui se faz e o que o território precisa. Mas também para acelerar a transferência de conhecimento e competências da academia para a sociedade, desde logo as empresas. E quero que este seja um contributo duradouro.

Isto estrutura-se em três vertentes. A primeira é o pacto de inovação que propus e que passa por um compromisso público que organize a cooperação em torno de objetivos mensuráveis, entre o Município, a Universidade e outras IES do território, os centros de I&D e o setor privado. A segunda, a infraestrutura física que torne esta parceria visível e ancorada — o Guimarães Space Hub na Fábrica do Arquinho é o primeiro grande exemplo, mas não será o único. A terceira é uma cultura de retorno do investimento em conhecimento. Durante anos investimos em criar condições para a investigação, mas é tempo de garantir que essa investigação se traduz em empresas, empregos qualificados e melhor qualidade de vida em Guimarães.

5 – Nos próximos três anos, de que forma poderá o Município de Guimarães colaborar com a EEUM para posicionar o concelho como um polo de referência em engenharia aeroespacial e noutras áreas estratégicas, tirando partido de infraestruturas de inovação e desenvolvimento tecnológico, como é exemplo a Fábrica do Arquinho, enquanto espaços de atração de talento, experimentação e ligação entre conhecimento, indústria e território?

A engenharia aeroespacial é, para nós, o caso de uso mais visível de uma estratégia maior. O projeto da Fábrica do Arquinho — um investimento próximo de vinte milhões de euros — vai reunir num só lugar laboratórios, centros de I&D, startups e empresas do setor, em estreita ligação com a EEUM. Mas o método é replicável noutras áreas onde a Escola já é forte, como nos polímeros, materiais avançados, têxtil técnico, inteligência artificial.
O contributo do Município passa por preparar o território (solo urbano, licenciamento, infraestrutura), canalizar financiamento europeu, abrir portas a investidores e usar a sua diplomacia económica para colocar a EEUM nas redes internacionais certas. O papel da Escola é trazer talento, ciência e quadros de excelência. Juntos, podemos transformar competências instaladas em economia real.

6 – Tendo em conta que a presidência da EEUM se encontra sediada no Campus de Azurém, de que forma entende que esta proximidade institucional pode ser aproveitada para reforçar uma agenda conjunta entre Município e Escola, com maior capacidade de decisão, articulação e impacto estratégico?

A proximidade geográfica entre os Paços do Concelho e o Campus de Azurém é uma vantagem competitiva que poucos territórios têm. Quero usá-la em pleno. Há mecanismos simples, mas com significância como, por exemplo, reuniões regulares de agenda estratégica entre a presidência da Escola e a presidência da Câmara. Este contacto estreito e periódico, de colaboração, entre os dois gabinetes já tem acontecido e tem sido frutífero.
Quero, também, que Azurém deixe de ser um campus universitário dentro de Guimarães e passe a ser um bairro de inovação da cidade, com a EEUM como âncora, mas com habitação para jovens investigadores, mobilidade qualificada, espaços para startups e ligação urbana ao centro histórico. Esse é um projeto de um living lab que só se faz em conjunto.

7 – De que forma pode Guimarães, enquanto território com forte identidade industrial, cultural e tecnológica, ajudar a EEUM a reforçar a sua ligação à sociedade e o impacto do seu trabalho junto da comunidade?

Guimarães tem três ativos que muitas escolas de engenharia gostariam de ter à porta. Tem uma cultura industrial profunda, famílias inteiras que sabem o que é uma fábrica, empresas competitivas internacionalmente no têxtil, no calçado, na metalomecânica, entre outras. Tem uma comunidade que sabe projetar-se e organizar grandes acontecimentos, dado que fomos Capital Europeia da Cultura, Cidade Europeia do Desporto, somos Capital Verde Europeia, e em 2028 celebramos os 900 anos da Batalha de São Mamede. E também tem uma identidade cívica forte, com um tecido associativo vivo.
A Escola pode ancorar-se em todos estes ativos. Aliás, ancora-se. Se formos olhar para as unidades de investigação e as ENESII ligadas à EEUM, verificamos uma fortíssima complementaridade entre elas e o tecido empresarial. Daí ser fundamental trabalhar com a indústria local para resolver problemas reais. Podemos também usar os grandes momentos da cidade como palcos de divulgação científica. Podemos entrar nas escolas básicas e secundárias do concelho para criar vocações. O Município ajuda a abrir essas portas.
Queremos que a ambição da EEUM e da UMinho seja global, mas a sua realidade tangível mais próxima é Guimarães, este é o território mais próximo e que pode transformar com mais facilidade, sendo por isso, também um desejável cartão de visitas da EEUM.

8 – Que iniciativas prioritárias considera que devem ser desenvolvidas em conjunto, nos próximos três anos, para projetar a EEUM como motor de inovação, desenvolvimento territorial e valorização do conhecimento?

É fundamental a estruturação de processos e sistemas de processos para que a cooperação com o território aconteça, não de forma esporádica ou episódica, mas sistemática. A EEUM produz conhecimento e capital humano de excelência. É importante que nestas duas vertentes sejam criadas pontes para as empresas e para a sociedade civil.
A nossa determinação está consagrada e estruturada no nosso programa, primeiro, com o pacto de inovação para estruturar a cooperação, estabelecer objetivos partilhados e metas comuns. Depois, as estruturas, físicas e organizacionais, que estruturem esta ação (caso da Fábrica do Arquinho no aeroespacial, mas de várias outras que estão a ser trabalhadas). Depois, uma agenda comum de afirmação e trocas com o território, seja através da atração de investimento, captação de financiamento, seja de desenvolvimento de projetos. E, através deste conjunto de iniciativas, transportar Guimarães do Berço da Nação para o Berço da Inovação, transformando-a num living lab partilhado, onde a Escola e empresas usam o território como banco de ensaio e ação em mobilidade, sustentabilidade, materiais e digital.